quarta-feira, 29 de maio de 2013

Fazendo comparações sobre a minha vida, descobri que sou um carro. Sim, um carro. Talvez você ache estranho essa comparação, mas vou explicar melhor... Eu sou um carro, daqueles velhos, que tudo que tinha dentro foi arrancado, e levado embora. Sou um carro sem volante, sem bancos ou pedais. Tudo foi brutalmente roubado de mim, e vendido ou jogado fora. As únicas coisas que restaram foram as fiações velhas que passam 24h por dia dando curtos. Confesso que passei uma semana sendo do tipo de carro abandonado na rua, que é pichado e tido como lixo... Mas eu resolvi me arrumar por fora. Pintei e desamassei toda a lataria, concertei os retrovisores e os vidros das janelas, troquei os pneus e pronto, tudo novo... PRA QUEM ESTÁ OLHANDO POR FORA. Por dentro continuo vazia, sem o volante, bancos ou pedais. Por dentro continuo abandonada, oca. Isso é tão verdade que sozinha não consigo andar, não consigo ir pra frente, não dá, é impossível. O que me leva pra frente são os meus guinchos, mas nem sempre eles estão por perto, então empaco no meio da estrada. E empacada, sempre tem um carro lindo, novo, com cores vibrantes e veloz que bate em mim. Amassa a minha lataria recentemente desamassada e arranca metade da minha pintura que ainda não está totalmente seca. Esse carro é tão poderoso que faz chover forte, tal chuva essa que lava toda a minha pintura nova e faz meus curtos piorarem. E novamente me mostra velha e enferrujada, um lixo ocupando espaço no meio da estrada. E então a historia recomeça, eu me pinto e me desamasso, me reconstruo e os guinchos me carregam até certo ponto, eu empaco no meio da estrada e esse carro novamente bate em mim, com uma força brutal por conta da sua velocidade e então chove, e tudo mais uma vez se desmancha. Entenderam a comparação? Eu sou um carro velho e destruído que se reconstrói por fora todos os dias. Por trás de cada sorriso falso tem uma estrutura inteira quase desabando, Meus sorrisos podem ser entendidos como o desamasso, a maquiagem como a pintura e a chuva? Ah, a chuva são as lágrimas, que lavam esse carro velho e o mostra como ele realmente é toda vez que tal carro bate em mim com um alto pode de destruição. Meus guinchos são os meus anjos, nem sempre eles podem estar comigo, mas quando estão me levam pra frente, e sozinha, bom... sozinha eu empaco no meio da estrada, afinal, sem pedais e volantes, com a fiação entrando em curtos como um carro pode andar? 
Pois é, eu bolei essa comparação inteira, e em seguida eu pensei: por mais que eu seja um carro velho e destruído, por fora eu insisto em me reconstruir, e cada vez que esse carro bate em mim, cada vez que ele me amassa e faz chover, ele está me empurrando para frente sem querer, alguns centímetros bobos, mas eu estou indo para frente mesmo com a batida. E mesmo que eu demore para me reconstituir novamente, mesmo sabendo que terei que refazer essa pintura inumes vezes, a cada batida eu estou um centímetro a frente. É como se eu estivesse ficando mais forte. E sinceramente? Eu vou me reconstruir quantas vezes forem necessário, por fora pelo menos. Não garanto que por dentro eu me refaça, afinal, me esvaziaram por inteiro. Mas quem sabe uma alma caridosa não me encontra no meio dessa estrada e me reconstrua por dentro e por fora? Sei que passarei um bom tempo na oficina sendo consertada, mas quando eu voltar estarei em alta velocidade, e se baterem em mim novamente, se a chuva voltar a cair, a minha pintura não poderá ser lavada por essa chuva.

- Sou um carro, Karyne Santiago

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