terça-feira, 19 de março de 2013

Sozinha no quarto, depois de um banho quente numa terça feira fria. Deitada na cama encolhida como um bebe no útero da mãe, implorando por uma proteção, por alguma coisa que aqueça e que acalme. Os calmantes estão sobre a mesa de cabeceira, ultimamente eles tem me feito companhia. A TV está ligada, acho que está passando o jornal, mas não me importa, sempre achei que jornais só passavam desgraças, e de desgraça já basta o que estou vivendo. Ouço minha mãe falando no telefone, com alguém do trabalho provavelmente. Fecho a janela do quarto e meus olhos agradecem a pouca escuridão. Volto a deitar, deixando a toalha cair e desligando a TV. Agora somos só eu e eu mesma. Perdida em um mundo infinito de pensamentos ruins. O que fazer quando você não encontra a solução? Porque eu choro o tempo inteiro nos últimos dias? Eu estava bem esse tempo todo, não estava?
Fecho os olhos e passo por um flashback em preto e branco. Meu primeiro dia na escolha, eu larguei a mão da minha mãe tão fácil. Eu gostava tanto daquilo. Depois, minha formatura de quarta série... A minha vela se apagou antes mesmo deu chegar ao tapete da entrada, minha mãe estava tão feliz aquele dia. Minha avó estava lá no meio da multidão, e a minha professora de três anos estava no palco, linda como sempre, mas não fui eu quem levou as flores pra ela. Em seguida o primeiro dia de aula na quinta série. Após a tragédia na família fiquei com medo de sair sozinha, e me vi sozinha naquele mundo completamente diferente. Chorei quando cheguei em casa naquele dia, e passei dois meses sem voltar pra escola, e quando voltei, lembro-me de ter entrada na sala com os olhos vermelhos e com o rosto molhado, era o meio da aula do professor de geografia, e ele me acolheu bem, e algumas pessoas da sala também. Apesar de todos em volta me olharem assustados tive um certo apoio e agradeço por isso. Ai os anos se passam, o sofrimento da primeira paixão, a rebeldia, os sorrisos não tão verdadeiros como os de antes, e mais uma tragédia. Essa... um tremendo segredo, guardado a sete chaves num lugar que nunca irá sair... Minha mente! E isso me vem assombrando todos esses anos. Ai os sorrisos falsos, os falso “não me importo”, o medo, a timidez, a não aceitação dos julgamentos sobre a minha pessoa. Mais alguns anos e finalmente a minha formatura, mais sorrisos falsos, mais olhares sem vida, apenas um corpo morto vestindo um longo vestido. Por dentro eu estava desmoronando. Foi ali que as coisas desandaram... Foi naquele momento que eu desisti de mim, resolvi morrer, me apagar, me fechar para o mundo. Mês após mês me autodestruí. Vi pessoas evoluindo, crescendo na vida, tomando minha frente, sendo felizes... E despertei do flashback, me vendo um ser completamente indefeso, perdido, frágil e fraco. Encolhida na cama, com o rosto úmido e os dentes levemente batendo uns nos outros por causa do frio. – “O que foi que me tornei?” – Perguntei mentalmente a mim mesma. Sem resposta mais uma lagrima escorreu quente e solitária por cima da raiz do meu nariz, passando por debaixo do meu olho e morrendo no colchão onde minha cabeça descansava. Respirei fundo e novamente fechei os olhos me perdendo em pensamentos novamente.
Levantei uma hora depois, me enrolando na coberta e enxugando as lágrimas insistentes. Me troquei, penteei os cabelos e passei uma maquiagem leve, alguma coisa que escondesse a palidez e os olhos inchados. Sai do quarto respirando fundo, falei com minha mãe com um pequeno sorriso e sai carregando todas as dores, medos e incertezas. Sozinha, no frio peguei um papel e uma caneta e resolvi escrever. Nunca quis escrever sobre minha vida, nunca gostei de me expor de tal forma, mas hoje eu precisei, por todos os segredos, por todas as dores, por todos os medos e por todos os gritos e choros entalados na garganta eu escrevi, tentando desabafar, tentando colocar no papel apenas um quilo das toneladas que carrego internamente todos os dias.

- Karyne Santiago.


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