terça-feira, 26 de março de 2013

Chega certo momento da vida que temos que crescer. Aceitar as mudanças, as responsabilidades e as perdas. Sem poder olhar pra trás, por conta do risco de paralisar temos que seguir. Caminhar sozinho sem um rumo certo, procurar o interruptor no escuro. Precisamos sair de baixo das asas dos nossos pais e fazer o primeiro voo solo. Antes desse primeiro voo, de achar o interruptor, dessa estrada que seguiremos precisamos entender que vamos estar sozinhos, que ninguém mais vai poder estar ao nosso lado, que ninguém vai poder ajudar, afinal, nascemos e morremos sozinhos. Muitos percorrem essa jornada numa boa, às vezes a solidão até faz bem para eles. Mas eu não sou assim. Eu sou aquele pássaro pequeno que nasceu com um defeito na asa, sou a pessoa que olhou para trás e paralisou no meio do caminho, sou a que tentou achar o interruptor no escuro e acabou levando um choque numa tomada. Eu nunca acompanhei o crescimento dos pássaros em volta, eu nunca consegui seguir meu caminho sem dar uma rápida olhada para trás pra ver se estou esquecendo alguém ou alguma coisa. Eu tentei meu primeiro voo solo e cai do alto da arvore, eu segui meu caminho olhando pra trás para tentar lembrar o que eu estava esquecendo e paralisei bem ali, no meio do caminho, eu tentei achar o interruptor e levei um choque. E mesmo com todos esses problemas e defeitos eu continuei. Cai da arvore, me levantei e consegui voltar para o ninho, eu levei um choque mais sobrevivi, eu olhei pra trás, mas a multidão me arrastou pra longe. E eu sempre disse que tudo estava bem, afinal, tudo bem não estar bem, ninguém se importa. Eu não sou como os outros. Nunca fui. O meu voo não pode ser solo, porque eu vou me perder, eu preciso de alguém pra me acompanhar, alguém que vai estar sempre ao meu lado quando eu precisar. Eu não consigo não olhar pra trás, porque se eu esquecer alguém eu vou me culpar por isso pelo resto da vida, além do fato de quando chegar ao auge, não ter ninguém pra comemorar a vitória comigo, ficar feliz por mim e me fazer ainda mais feliz. Quanto ao escuro... Eu sempre tive medo! Não dos monstros, fantasmas ou coisas do tipo, mas da solidão que ele transmite, do calafrio que ele nos faz sentir na espinha. Foram tantas as vezes que cai do ninho, que eu levei um choque tentando encontrar o interruptor ou olhando para trás antes de seguir meu rumo, e foram tantas as vezes que eu consegui me recuperar de todas essas coisas, então porque é que agora eu não sinto que vou conseguir superar essas coisas? Porque eu simplesmente não faço como todas as pessoas fizeram? Porque eu não consigo brilhar sozinha? Afinal, a estrela mais bonita é sempre a que brilha distante das outras não é? Mas sinceramente? Eu nunca gostei das estrelas solitárias, eu sempre preferi as constelações, estrelas juntas, brilhando igualmente, inseparáveis... Isso é tão mais deslumbrante. Porque as pessoas não conseguem pensar assim? Porque elas têm que me acompanhar até certo ponto e depois me abandonar ali, no chão ao lado da grande arvore, no quarto escuro sem interruptor, ou no meio do caminho, paralisada por olhar pra trás? Será que ninguém sente a minha falta ao seguir sozinho? Será que só porque a minha asa é defeituosa eles me rejeitam? Ou talvez seja pelo meu medo bobo do escuro, ou pelos atrasos por olhar para trás... Quem sabe? Eu só queria que alguém sentisse minha falta, sentisse a saudade que eu sinto, a solidão que eu sinto, ou talvez que alguém apenas me entendesse e voltasse para me resgatar... Todos foram embora, todos estão tão próximos do auge e eu estou aqui, caída, tão machucada que nem consigo me mexer ou gritar para pedir socorro e no escuro.  E delirando que alguém voltará para me resgatar, dizendo que ‘vai estar ali comigo pra sempre’ eu vou definhando, quem sabe até quando... Quem sabe quanto tempo mais meu corpo e mente vai poder aguentar...

- Karyne Santiago, O primeiro voo.

 

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